As Faculdades da Alma: Um Guia para a Mente Humana

As faculdades da alma são capacidades presentes em todas as pessoas que as permitem perceber, sentir e pensar.

As faculdades da alma são capacidades internas que moldam como percebemos o mundo, tomamos decisões e buscamos o bem-estar.

Esses conceitos, explorados pela filosofia e psicologia, especialmente nas obras de Aristóteles e Santo Tomás de Aquino, oferecem intuições valiosas para quem deseja autoconhecimento.

Neste artigo, exploraremos as principais faculdades humanas e como elas influenciam nossa vida prática.

Sentido Comum: A Base das Faculdades Sensitivas

O sentido comum é uma das faculdades interiores que integra as percepções dos cinco sentidos externos – visão, audição, tato, olfato e paladar.

Ele funciona como um elo entre o corpo e a alma, unificando essas impressões para criar uma visão coerente do mundo. Por exemplo, é o sentido comum que nos permite distinguir o som de uma voz da textura de um objeto, ajudando-nos a navegar pela realidade de forma prática.

Razão: A Faculdade da Avaliação Prática

Entre as faculdades sensitivas internas – como sentido comum, imaginação e memória – está a razão, também chamada de cogitativa ou de razão particular.

No ser humano, a razão é elevada pelo intelecto, mas foca em avaliar situações específicas com base em percepções sensoriais e experiências acumuladas.

Diferentemente da razão intelectual, que abstrai conceitos universais, essa faculdade prepara o terreno para decisões práticas.

Suas funções incluem:

  • Reconhecimento de perigos;
  • Escolha de recursos;
  • Resposta a emoções;
  • Estimativas.

Exemplos da razão operando são reconhecer o perigo diante de um cão raivoso, a reação imediata às emoções, a decisão de se é seguro atravessar a rua quando há um carro vindo, o reconhecimento se um alimento é próprio para comer e outras coisas.

Apetite Concupiscível: A Busca pelos Bens Sensíveis

O apetite concupiscível é uma das faculdades da alma sensitiva que nos inclina a bens agradáveis, como comida, descanso ou afeto.

Essa faculdade é naturalmente boa, mas exige equilíbrio – ou temperança – para evitar excessos, como a gula. Por exemplo, desejar comer é saudável, mas priorizar o prazer da comida acima da saúde reflete um desajuste que pode levar a um mal – a obesidade.

Para que os bens desejados pelo apetite concupiscível sejam benéficos é necessário que eles se encaixem dentro de uma hierarquia (por exemplo, a saúde é superior ao prazer da comida), sendo que tal ela é percebida através dos intelectos.

Apetite Irascível: A Força das Faculdades em Desafios

Diferente do concupiscível, o apetite irascível é a faculdade que nos impulsiona à busca dos bens difíceis, que são aqueles que só são alcançados após o enfrentamento de uma dificuldade, como superar um medo, alcançar a harmonia familiar ou persistir em um objetivo.

Ligada a emoções como coragem, ira e esperança, essa faculdade é necessária em situações desafiadoras – por exemplo, um estudante se preparando para o vestibular, resistindo ao repouso em prol do estudo.

Quando o apetite irascível não está desenvolvido, é comum que a pessoa desista de seus objetivos nas primeiras dificuldades, pois não tem o ímpeto para superá-las.

Intelecto Ativo: A Luz das Faculdades Intelectivas

O intelecto ativo, ou intelecto agente, é uma das faculdades mais elevadas da alma. Ele transforma impressões sensoriais (também chamados de fantasmas) em conceitos universais, permitindo o conhecimento profundo.

Ao ver uma árvore, por exemplo, o intelecto ativo abstrai a ideia de “árvore” além de suas particularidades. Basicamente, todo o ato de pensar discursivamente é a ação do intelecto ativo.

Esta faculdade permite ao homem transcender o material, buscando verdades mais elevadas ao discernir as essências das coisas além dos aspectos acidentais.

Intelecto Passivo: O Depósito do Conhecimento

O intelecto passivo, ou “intelecto possível” é uma das faculdades da alma que armazena os conceitos universais abstraídos pelo intelecto ativo.

Descrito como uma “tábua rasa”, o intelecto passivo recebe formas inteligíveis – como o conceito de “árvore” – a partir das impressões sensoriais já processadas pelo intelecto ativo, funcionando como o depósito do conhecimento humano.

Essa faculdade é receptiva, sendo atualizada pelo intelecto ativo, e tem capacidade ilimitada, crescendo com a experiência. Sua operação é silenciosa, evidente ao recordar ou aplicar conceitos, e interage com outras faculdades, como a vontade, para decisões práticas.

O intelecto passivo, por sua natureza imaterial, sugere um potencial espiritual, possibilitando a contemplação de verdades eternas, tal a essência de Deus.

Vontade: A Faculdade das Escolhas Conscientes

A vontade, ou apetite racional é uma das faculdades racionais da alma, que inclina o homem ao bem percebido pelo intelecto. Ela se distingue dos apetites sensíveis ao operar de forma livre e deliberada, permitindo escolhas entre diferentes bens ou meios para alcançá-los.

Ela é ativa e dinâmica, combinando conhecimento intelectual com ação prática. A vontade reflete e decide, sendo a sede da liberdade e da responsabilidade.

Por exemplo, ao optar por um bem maior em vez de um prazer imediato, a vontade demonstra sua capacidade de ordenar os desejos, mesmo que, por erro, possa confundir o verdadeiro bem.

A vontade, por sua natureza espiritual, reflete a liberdade da alma e aponta para a busca do Bem Supremo, identificado na filosofia clássica como Deus.

Ela é essencial para a vida moral, permitindo ao homem alinhar suas escolhas com a razão e aspirar a uma realização última, como a felicidade eterna na visão beatífica.

Conclusão

As faculdades da alma – sentido comum, razão, apetite concupiscível, apetite irascível, intelecto ativo, intelecto passivo e vontade – formam um conjunto harmonioso que reflete a complexidade da natureza humana.

Cada uma delas, desde as sensitivas, que conectam o homem ao mundo material, até as intelectivas e volitivas, que o elevam ao espiritual, colabora para a busca do bem e da verdade, guiando o homem em sua jornada prática e moral.

Juntas, as faculdades revelam a unidade da alma, permitindo ao homem alcançar sua plenitude na busca pelo bem e pela realização plena de sua natureza.

Para aprofundar

Para aprofundamento na questão das faculdades da alma, ficam as seguintes sugestões:

  • De Anima, de Aristóteles;
  • Comentário ao De Anima, de Santo Tomás de Aquino;
  • Tratado do Homem (Suma Teológica, 1ª Parte), de Santo Tomás de Aquino.